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sábado, maio 26, 2007

Guerra Junqueiro - actualíssimo


Apesar de escrito em 1896 este texto de Guerra Junqueiro não perde actualidade ao caracterizar a sociedade portuguesa.

Leiam e vejam se não é verdade:

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este,finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. [.] A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas; Dois partidos [.] sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, [.] vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

Guerra Junqueiro, "Pátria", 1896.

segunda-feira, maio 14, 2007

A praga da canga


É bom atentar para o que o papa diz. Porta-voz de Deus na Terra, ele só pensa pensamentos divinos. Nós, homens tolos, gastamos o tempo pensando sobre coisas sem importância tais como o efeito estufa e a possibilidade do fim do mundo. O papa vai directo ao que é essencial: “O segundo casamento é uma praga!”
Os casamentos, o primeiro, o segundo, o terceiro, pertencem à ordem maldita, caída, praguejada, pós-paraíso. Nessa ordem não se pode confiar no amor. Por isso inventou-se o casamento, esse contrato de prestação de serviços entre marido e mulher. O casamento não é uma celebração do amor, é o estabelecimento de direitos e deveres. Até as relações sexuais são obrigações a ser cumpridas.
O papa está certo. O segundo casamento é uma praga. Eu, como já disse, acho que todos são uma praga. O símbolo dessa maldição está na palavra “conjugal”: do latim, “com”= junto e “jugus”= canga. Canga, aquela peça pesada de madeira que une dois bois. Eles não querem estar juntos. Mas a canga obriga-os, sob pena do ferrão…
Para haver segundo casamento, é preciso que o primeiro seja anulado pelo divórcio. Permitir o divórcio equivale a dizer: o sacramento é uma balela. Donde, a igreja é uma balela… Com o divórcio ela seria rebaixada do seu lugar infalível e passaria a ser apenas uma instituição falível entre outras. A igreja, sábia, tratou de livrar os seus funcionários da maldição do amor. Proibiu-os de se casarem.

Hoje, a questão que se põe é porquê manter um casamento contra a vontade de uma das partes, a necessidade do mútuo acordo. Se a vontade dos cônjuges é indispensável para originar o casamento, não se compreende que ele possa manter-se contra a vontade de uma das partes. Começa a não caber na cabeça das pessoas que seja necessário invocar a violação dos deveres para solicitar o divórcio.
Há já uma série de situações que desvalorizam o casamento como instituição. O único motivo que deve bastar para originar o divórcio é a vontade expressa de um dos cônjuges, ou dos dois, o casamento deve adaptar-se às mudanças sociais e ser entendido como "um encontro de duas liberdades".

sábado, maio 05, 2007

Um cadáver no prato


"Tenho um animal morto no meu prato!", assim exclamou um amigo, filho de emigrantes portugueses nos EUA, após regressar ao país e lhe servirem um robalo grelhado num restaurante de Peniche. Nos EUA este amigo habituou-se a comer comida embalada em caixinhas, café fechado em goblets de cartão, queijos coloridos e sem cheiro, croquetes de todos os tipos de carne moída com formazinhas do Mickey e de peixinhos iguais aos desenhos da escola primária, pipocas da cor dos marcadores fluorescentes da Stabilo e bolachas com pepitas de morango, mas sem morango, pepitas feitas de pequenas gomas vermelhas com aroma artificial a morango.

Nos EUA ninguém proibiu que se coma peixe grelhado, que se veja a cor do café, que se toque num grão de milho ou que se comam morangos frescos, mas na realidade a "mão invisível" da religião do Mercado encarregou-se de que a esmagadora maioria dos americanos já não saiba o que de facto come. Sabem que comem marcas, que comem coisas trituradas, depois enformadas e coloridas como nos filmes da Disney e de Hollywood, sabem o número dos menus do restaurante X e a cor do "queijo" (em geral são emulsões lácteas e não queijo) que sai fora da sanduíche do menu Y.

Na prática, a ideologia do ultraliberalismo, da mão invisível responsável pela alienação alimentar da maior parte dos americanos (os mais pobres), é muito mais proibitiva, sem proibir, do que os preconceitos alimentares religiosos comuns às religiões do livro (os católicos também os têm). É particularmente uma ideologia mais proibitiva do que o Islão. Na verdade, e apesar da diferença de níveis de vida, em média, a alimentação de um muçulmano é muito mais variada do que a alimentação de um americano. Se deixássemos, seria essa alimentação "americana" que a Europa teria à mesa "daqui a uns anos", nada de peixes mortos no prato, nem queijos que cheiram mal, nem legumes crus, tudo seria servido em caixinhas da Disney, com histórias dos sobrinhos do Mickey. Dos sobrinhos, obviamente! É que as criancinhas poderiam ficar chocadas se fossem filhos do Mickey. Como é que se iria depois explicar que o Mickey tem um pénis a Minie uma vagina que servem para copular e ter filhos?

terça-feira, maio 01, 2007

O "Proletariado" dá lugar ao "Precariado"

A precariedade invade todas as áreas da vida e é mais completa entre os mais novos: desempregados e contratados a prazo, bolseiros, estudantes-trabalhadores (já/ainda/quase), imigrantes, etc...
Sair de casa dos pais, ter um filho, aguentar uma renda ou um empréstimo, são coisas simples que se transformam em grandes riscos.
O trabalho precário nem sempre é pago. É quase sempre mal pago. O patrão que emprega raramente é o que contrata: as empresas de trabalho temporário multiplicam-se, crescem e exibem lucros milionários. Nelas, o salário é mais curto, o contrato pode acabar sem aviso e nem sempre deixando subsídio de desemprego.
A luta do Século XXI é pelo direito a trabalhar sem chantagem e a um mínimo de independência e conforto. Ninguém quer passar o resto da vida a pensar como pagar a próxima conta e a fazer malabarismos com três trabalhos precários.

Sempre a abrir

A Internacional



De pé, ó vitimas da fome!
De pé, condenados da terra!
Da ideia a chama já consome
A crosta bruta que a soterra.
Cortai o mal bem pelo fundo!
De pé, de pé, não mais senhores!
Se nada somos neste mundo,
Sejamos tudo, oh produtores!

Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional
Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional


Senhores, patrões, chefes supremos,
Nada esperamos de nenhum!
Sejamos nós que conquistemos
A terra mãe livre e comum!
Para não ter protestos vãos,
Para sair desse antro estreito,
Façamos nós por nossas mãos
Tudo o que a nós diz respeito!

Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional
Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional


Crime de rico a lei cobre,
O Estado esmaga o oprimido.
Não há direitos para o pobre,
Ao rico tudo é permitido.
À opressão não mais sujeitos!
Somos iguais todos os seres.
Não mais deveres sem direitos,
Não mais direitos sem deveres!

Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional
Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional


Abomináveis na grandeza,
Os reis da mina e da fornalha
Edificaram a riqueza
Sobre o suor de quem trabalha!
Todo o produto de quem sua
A corja rica o recolheu.
Querendo que ela o restitua,
O povo só quer o que é seu!

Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional
Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional


Nós fomos de fumo embriagados,
Paz entre nós, guerra aos senhores!
Façamos greve de soldados!
Somos irmãos, trabalhadores!
Se a raça vil, cheia de galas,
Nos quer à força canibais,
Logo verrá que as nossas balas
São para os nossos generais!

Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional
Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional


Pois somos do povo os activos
Trabalhador forte e fecundo.
Pertence a Terra aos produtivos;
Ó parasitas deixai o mundo
Ó parasitas que te nutres
Do nosso sangue a gotejar,
Se nos faltarem os abutres
Não deixa o sol de fulgurar!

Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional
Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional

sábado, abril 28, 2007

Cavaco não gosta de cravos

Uma das coisas que tenho visto é imensa gente que detesta o 25 de Abril muito preocupada com a falta de renovação das comemorações do 25 de Abril. E se a simbologia é importante em comemorações, gostava de ter visto Cavaco com um cravo ao peito. Não é obrigado, claro. Mas fico a imaginar que tipo de comemoração quer, em que o mais básico e consensual da simbologia da data o incomoda.
Não vejo melhor momento que as comemorações do 25 de Abril para convidar a sociedade portuguesa a debater a qualidade da democracia que se conquistou: uma democracia em que grande parte da população prescinde do direito de votar, uma democracia em que os tribunais funcionam apenas para os ricos, uma democracia em que a transparência não existe (desde a nomeação para cargos públicos à execução das leis), enfim uma democracia onde a fraca aposta na educação parece continuar a impedir os cidadãos de exigirem mais e melhor dos seus políticos e já agora dos seus jornalistas.
O 25 de Abril é um óptimo momento para convidar as pessoas a avaliar a força da democracia que se quer comemorar e já agora explicar à juventude que se não quiser participar na vida política, outros o farão por ela e com consequências para todos.
Com a revolução tecnológica, com os blogues incluídos , a esfera pública da política está ao alcance de praticamente qualquer um, o que é francamente positivo para a democracia. E que os 25 de Abril que hão-de vir, sirvam também para explicar a mais e a mais pessoas que a sua participação na vida política é essencial e que apesar do 25 de Abril ser do Povo e da rua, agora até é possível fazê-lo a partir de um simples computador pessoal.
Que Abril seja, ainda e sempre, mais do que memória e simbolismo. Antes de Cavaco. Depois de Cavaco. Sem Cavaco.

terça-feira, abril 24, 2007

25 de Abril Sempre

Muita coisa se alterou com o 25 de Abril de 1974.
Mas, a mudança não se efectuou num dia. Foi preciso tempo, empenho, coragem e sacrifícios de muitas pessoas para construir um país diferente onde Liberdade, Solidariedade e Democracia não fossem apenas palavras. Ao longo deste caminho, construíram-se partidos e associações, foi garantido o direito de expressão e realizaram-se eleições livres. Vivemos em Democracia.Terminou a guerra colonial, e as antigas colónias portuguesas tornaram-se independentes. Vivemos em paz.Os Açores e a Madeira são hoje Regiões Autónomas, com orgãos de governo próprio. A Constituição garante os direitos económicos, jurídicos e sociais dos cidadãos.Hoje, podemos falar livremente, dizer aquilo com que concordamos e o que não apoiamos, integrar associações, viver num novo Espaço Europeu e ter acesso directo ao Mundo sem receio de censura ou perseguições.
Os trabalhadores portugueses alcançaram importantes conquistas e adquiriram um valioso conjunto de direitos, até então negado, que constituem um património da nossa democracia e fundamentos do regime constitucional: a liberdade sindical e os direitos sindicais; o direito de reunião e de manifestação; o direito de greve; o direito de negociação colectiva; a constituição de comissões de trabalhadores; a institucionalização do salário mínimo; a generalização do 13º mês; o direito a um mês de férias e respectivo subsídio; a democratização do ensino; a universalização do direito à segurança social e à saúde; a generalização das pensões de reforma e do subsídio de desemprego; a participação em múltiplos órgãos e organismos do Estado.
As conquistas do 25 de Abril estão de tal modo inseridas no quotidiano que mal se dá por elas.As mulheres foram reconhecidas como cidadãs de plenos direitos: têm acesso a todas as profissões, podem votar, ter contas bancárias, possuir passaporte e sair do país sem autorização escrita dos maridos, o que antes da revolução de 1974 era impensável. Foram abolidas as certidões de bom comportamento moral e cívico e as informações da polícia necessárias a quem deseje obter certos empregos.
Temos uma democracia avançada em termos político-constitucionais, mas não temos uma sociedade avançada no plano económico e social. Continua-se a insistir num modelo de crescimento baseado na mão-de-obra barata; confrontamo-nos com um violento ataque aos sistemas públicos da segurança social, da saúde e do ensino; enfrentamos uma feroz ofensiva, conduzida principalmente pelos últimos Governos, contra os direitos dos trabalhadores; cresce o desemprego e a precariedade do trabalho.
Hoje, 33 anos depois, quando nos confrontamos ainda com tantos problemas sociais e grandes dificuldades para afirmar um desenvolvimento que nos aproxime, de forma segura, dos nossos parceiros europeus e quando estamos perante um quadro em que os melhores valores e ideais da humanidade são postos em causa pela globalização capitalista, afirmar Abril, é um objectivo que deve estar presente, todos os dias, na nossa acção.

Sem preconceitos nem complexos...

Apesar do percurso político, polémico, do Comandante Operacional do "25 de Abril", é impossível falar do sucesso da Revolução dos Cravos, sem reconhecer a generosidade e a bravura dos Capitães de Abril, nomeadamente de "Oscar", nome de código de Otelo Saraiva de Carvalho.
Impõe-se, nesta data, relembrar os genuinos obreiros de Abril, aqueles que, dispostos a morrer, enfrentaram as forças fieis ao regime, derrotando-as sem derramamento de sangue e ganhando o imediato apoio do Povo.

sábado, abril 21, 2007

O enterro do "Limbo"


Com a publicação do documento "A esperança de salvação para bebés que morrem sem ser batizados", a Igreja Católica acaba de eliminar o limbo – a morada das almas que, não tendo cometido pecado mortal, estão afastadas da presença de Deus – onde a tradição colocava todas as crianças que morriam sem antes haverem recebido o sacramento do baptismo. Considera agora que aquele reflectia «uma visão excessivamente restritiva da salvação». No documento acabado de publicar, a Comissão Teológica Internacional, que depende da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Tribunal do Santo Ofício), declara-se finalmente convencida de que existem «sérias razões teológicas para crer que as crianças não baptizadas que morrem se salvarão e desfrutarão da visão de Deus». Resta saber se esta decisão terá efeitos retroactivos e para que servirão as instalações até agora ocupadas por aquele serviço.

Homenagem merecida

Caros amigos,

Os CTT estão a promover uma iniciativa para os 20 temas dos selos de 2008. Eu fiz uma proposta para que fosse homenageado Zeca Afonso, figura ímpar da cultura portuguesa, que trilhou, desde sempre, um percurso de coerência. Na recusa permanente do caminho mais fácil, da acomodação, no combate ao fascismo salazarento, na denúncia dos oportunistas, dos "vampiros que destroçaram Abril".
O meu apelo é para que votem nesta opção.
O link directo é: aqui há selo.
Agradeço a vossa participação e se possível enviem a mensagem para todos os vossos contactos.
Davide da Costa

Associemo-nos a esta homenagem.
Enviem esta mensagem para todos os vossos Contactos.

"Traz Outro Amigo Também"...

Zeca para Sempre!


domingo, abril 15, 2007

Religião e religião organizada

Eu acho que religião e religião organizada são coisas muito diferentes. A primeira é uma coisa inata - eu acho que é uma disfunção qualquer, uma desordem neurológica, mas isso é só a minha opinião - e a segunda é uma coisa muito mais perigosa: é uma organização política com uma agenda própria e onde os objectivos não podem ser, por definição, a paz na Terra, a justiça social, ou qualquer uma das outras coisas que eles apregoam.

Avivar a memória

Agora, que nos aproximamos de mais uma comemoração do 25 de Abril, e que pela degradação da vida democrática e das condições económicas, alguns começam a fazer apelos aos tempos do "rigor, disciplina, sobriedade económica, controlo de opinião, etc. e tal", a eleger Salazar como o maior português, convém lembrar a face negra da era salazarista.

Os quarenta e oito anos de ditadura fascista constituem um dos períodos mais sombrios da história de Portugal.

A ditadura fascista criou um Estado totalitário e um monstruoso aparelho policial de espionagem e repressão políticas. Que actuava em todos os sectores da vida nacional, privando o povo português dos mais elementares direitos e liberdades.

A história da ditadura é uma história de perseguições, de prisões, de torturas, de condenações, de assassinatos daqueles que ousavam defender os direitos do povo, protestar, lutar pela liberdade e por melhores condições de vida e de trabalho.

Utilizando a força coerciva do Estado, a ditadura fascista impulsionou a centralização e a concentração de capitais, a formação de grupos monopolistas. Que se tornaram donos e dirigentes de todos os sectores fundamentais da economia nacional. Acumulando grandes fortunas assentes na sobre exploração, nas privações, na miséria e na opressão do povo português e dos povos das colónias portuguesas.

A ditadura fascista impôs aos trabalhadores formas brutais de exploração. Sacrificou gerações de jovens em treze anos de guerras coloniais. Forçou centenas de milhar de portugueses à emigração. Agravou as discriminações das mulheres e dos jovens, a subalimentação de grande parte da população, o obscurantismo, o analfabetismo, a degradação moral da sociedade.

A ditadura fascista realizou uma política externa de conluio com os regimes mais reaccionários. Que se traduziu no apoio directo à sublevação fascista em Espanha, na cooperação com a Alemanha nazi e a Itália fascista. Que se manifestou nas concessões militares que levaram ao estabelecimento de bases estrangeiras no território português. Que se revelou na subserviência ante as grandes potências imperialistas e no alinhamento com a política de guerra dos seus círculos mais agressivos e reaccionários.

É tudo isto, e muito mais, que certos sectores da sociedade portuguesa procuram esconder e escamotear. Assiste-se a uma permanente e bem elaborada campanha, com vastos meios e sob diversas formas, de branqueamento do regime de Salazar e Caetano.

Pretende-se, despudoradamente, reescrever a história de Portugal no século XX. Por um lado, nega-se a própria existência de um regime fascista. Por outro, intenta-se apagar da memória a gesta da resistência antifascista. As expressões concretas deste objectivo são múltiplas e variadas.

A memória dos povos não é um peso morto das recordações do passado, nem uma crónica desapaixonada dos acontecimentos. A razão de ser da memória histórica está na extracção das lições do passado. Está na aspiração de tornar impossível o desabar de catástrofes sobre a humanidade durante muitos séculos.


terça-feira, abril 10, 2007

O Canudo, por um canudo


Independentemente de ter assistido às aulas, ter estudado e ter tido aproveitamento avaliado, a prática, que é aquilo para que serve a teoria, incluindo a de natureza académica, no caso uma prática pública, absolve os formalismos académicos associados à qualidade de licenciado em engenharia civil atribuída pela Universidade Independente a José Sócrates.

Vejamos, em contributo para o juízo do júri público acerca da forma como Sócrates tem exercido os seus mandatos como líder do PS e primeiro-ministro:
- Análise de Estruturas: Aprovado. Alguém chega a Secretário-Geral do PS sem analisar com mestria o estado e as inclinações das estruturas locais e regionais do PS?
- Betão (armado e pré-esforçado):Aprovado . Não há hipótese de haver primeiro-ministro que não seja perito em betão. No mínimo, não conseguia entender-se com a Associação Nacional de Municípios.
- Estruturas Especiais: Aprovado. Pela quantidade de assessores e ainda ter nomeado um Secretariado Geral de todas as polícias na sua dependência directa.
- Inglês Técnico: Aprovado. Por ser uma necessidade básica para a próxima presidência da UE.
- Projecto e Dissertação: Aqui vamos por partes, com uma aprovação e um chumbo clamoroso. Em “Dissertação”: distinção com louvor (basta a forma como arrasa mensalmente as oposições nos debates parlamentares). Quanto a “Projecto”, a ausência de ter lido sequer uns parcos apontamentos sobre a matéria, é gritante. Mesmo que cabulassse, nota-se à légua que não meteu pé em qualquer aula ou disso alguma vez tivesse tido vontade.

Estude “Projecto”, Engenheiro Sócrates, e dê-nos uma luzinha sobre o que quer para este país além do défice. Então, nós, bom povo português, damos-lhe o “canudo”, em forma de utilidade pública, e a chicana morre já.